A surpresa do primeiro pagamento menor que o esperado

É comum uma empresa vencer a licitação, entregar o produto ou prestar o serviço, aguardar o pagamento — e receber um valor líquido menor do que o previsto no contrato. Na maioria das vezes, a explicação não é erro do órgão, mas na fonte, um mecanismo legal pelo qual parte dos tributos devidos já é descontada no momento do pagamento, antes mesmo de chegar à conta da empresa contratada.

Entender esse mecanismo antes de precificar a evita a surpresa e permite calcular corretamente quanto a empresa efetivamente vai receber líquido de cada .

Quais tributos costumam ser retidos na fonte

Em contratos com órgã públicos federais, a de tributos como IRPJ (Imposto de Renda Pessoa Jurídica), CSLL (Contribuição Social sobre o Líquido) e PIS/COFINS costuma seguir as regras da Lei 9.430/1996, que disciplina a retenção de tributos federais sobre pagamentos efetuados por órgãos da administração pública a pessoas jurídicas fornecedoras de bens e serviços.

Além desses tributos federais, contratos de prestação de serviç frequentemente sofrem também retenção de (contribuição previdenciária, quando aplicável ao tipo de serviço) e de ISS (Imposto Sobre Serviços), este último de competência municipal. Não é possível cravar aqui o percentual exato aplicável a cada tributo, porque essas alíquotas são definidas em normas específicas que podem ser atualizadas — o percentual correto deve sempre ser confirmado na legislação vigente no momento da , seja na Instrução Normativa da correspondente, seja na legislação municipal de ISS aplicável.

Publicidade

Uma empresa de consultoria contratada por um órgão federal para prestar serviço técnico, por exemplo, deveria projetar na precificação da a possibilidade de sofrer retenção conjunta de IRPJ, CSLL, PIS/COFINS e — cada um desses tributos com sua própria regra de incidência e, em alguns casos, com piso de valor de contrato a partir do qual a retenção passa a ser aplicada. Ignorar essa possibilidade na fase de precificação é um dos erros mais comuns entre empresas que fecham o primeiro contrato de prestação de serviço para o .

Vale lembrar também que contratos de fornecimento de bens (sem prestação de serviço associada) costumam ter uma dinâmica de retenção diferente da de contratos de serviço, já que parte dos na fonte, como , incide especificamente sobre a mão de obra empregada na execução. Uma empresa que fornece apenas equipamentos, sem serviço de instalação incluído, tende a ter uma composição de retenção distinta de uma empresa que fornece o mesmo equipamento já com instalação e manutenção como parte do contrato.

Por isso, contratos mistos — que combinam fornecimento de material e prestação de serviço em um único , como o fornecimento e a instalação de um sistema de climatização, por exemplo — merecem atenção redobrada na hora de estimar a retenção. É comum que o ou o contrato já indique como o órgão vai segregar essas duas naturezas de despesa para fins de retenção, mas quando isso não fica claro, vale perguntar formalmente ao órgão antes de fechar o preço final da , evitando calcular a retenção de forma genérica sobre o valor total do contrato.

Uma prática recomendável para empresas que fecham contratos públicos com regularidade é manter uma planilha própria de controle de retenções por contrato, registrando o valor bruto faturado, o valor de cada tributo retido informado pelo órgão e o valor líquido efetivamente recebido. Com o tempo, esse histórico ajuda a antecipar com mais precisão o efeito da retenção em propostas futuras para o mesmo órgão ou para órgã de natureza semelhante, reduzindo a margem de erro na precificação.

Esse controle também facilita a conversa com o contador da empresa na hora de planejar o fluxo de caixa: em vez de projetar apenas o valor bruto do contrato assinado, a empresa consegue projetar com mais realismo o valor líquido que efetivamente vai entrar no caixa, mês a mês, considerando as retenções esperadas para aquele tipo específico de órgão e de contratado — informação que, com o tempo, se torna um ativo estratégico e bastante valioso na hora de decidir quais editais futuros realmente valem a pena disputar para a empresa.

Empresa do Simples Nacional sofre retenção do mesmo jeito?

Não necessariamente. Empresas optantes pelo Simples Nacional têm regras de diferentes das aplicáveis a empresas tributadas pelo presumido ou lucro real. Em muitos casos, a sistemática do Simples Nacional já unifica o recolhimento de vários tributos em uma guia única (DAS), o que altera a lógica de em relação ao regime tradicional.

Isso significa que uma empresa optante pelo Simples Nacional não deve simplesmente replicar a expectativa de retenção de uma empresa do presumido ao precificar sua . Para entender como o enquadramento no Simples Nacional se comporta especificamente em contratos públicos, veja como o Simples Nacional se comporta em contratos com o governo.

Existe valor mínimo de contrato abaixo do qual não há retenção?

, em regra existe um piso de valor abaixo do qual a retenção de determinados tributos federais não se aplica — é uma característica comum da legislação de , pensada para não onerar operações de baixo valor com burocracia tributária desproporcional. Esse valor mínimo, porém, não deve ser assumido de memória: ele consta na regulamentação vigente da e pode ser atualizado, então o ideal é confirmá-lo diretamente na norma em vigor no momento da contratação, em vez de usar um número de referência antigo.

Como sei quanto vou receber líquido depois das retenções?

O cálculo do valor líquido depende de somar as retenções aplicáveis ao seu caso específico — tributos federais conforme a Lei 9.430/1996, quando aplicável ao tipo de serviço, e ISS conforme a do município da prestação — e subtrair esse total do valor bruto faturado na . Esse cálculo deveria fazer parte do processo de precificação da , não ser descoberto apenas no momento do . Para entender como estruturar corretamente a emissão do documento fiscal que vai refletir essas retenções, veja como emitir nota fiscal para órgão público.

A retenção de ISS varia entre municípios diferentes?

. O ISS é um tributo de competência municipal, o que significa que cada prefeitura define sua própria dentro dos limites estabelecidos pela legislação complementar federal. Uma empresa que presta serviç para órgãos públicos em municípios diferentes pode, portanto, ter percentuais de retenção de ISS distintos a cada contrato, dependendo da legislação tributária local vigente naquele município específico.

Isso reforça a necessidade de checar a legislação municipal aplicável a cada novo contrato, em vez de assumir que a de um município anterior vai se repetir automaticamente em outro.

Uma empresa de serviç de manutenção predial que presta serviço tanto para um órgão estadual em uma capital quanto para uma prefeitura de cidade menor do interior, por exemplo, pode enfrentar duas alíquotas de ISS diferentes nos dois contratos, simplesmente porque os municípios têm legislações tributárias próprias. Vale sempre consultar a Lei Complementar municipal de ISS do local da prestação do serviço antes de fechar o cálculo final da .

O que fazer se o órgão reteve um valor que considero errado

Antes de contestar formalmente uma retenção que pareceu equivocada, vale checar dois pontos: se a foi emitida com a discriminação e o enquadramento tributário corretos, e se o cálculo aplicado pelo órgão de fato diverge da norma vigente para aquele tipo de contratação e porte de empresa. Erros de retenção às vezes se originam de informação incorreta prestada pela própria empresa contratada na nota fiscal, não de erro do órgão.

Confirmados esses pontos e persistindo a divergência, o passo seguinte é formalizar a contestação junto ao setor financeiro do órgão responsável pelo pagamento, apresentando a base legal que sustenta o valor que a empresa considera correto. Para acompanhar esse processo de perto, veja como acompanhar pagamentos do governo.

Documentar por escrito cada contestação, com data e referência ao dispositivo legal aplicável, cria um histórico útil não só para aquele contrato específico, mas para contratos futuros com o mesmo órgão — muitas vezes o mesmo tipo de dúvida se repete em pagamentos seguintes, e ter a base de argumentação já organizada acelera a resolução das próximas vezes.

FAQ

Reunimos as dúvidas mais comuns sobre retenção de tributos em contratos com o governo.